torno, amiga
As duas mãos no torno, em força centrípeta. Tem que segurar firme a argila, a terra, que sobe falicamente e desce circularmente com os dois dedões das mãos, quando abre-se o mundo, uma vagina, e vai abrindo a possibilidade da feitura de um pote, um prato.
Os dedos fora e dentro para forjar uma parede mais alta ou mais baixa. Os dedos, as mãos paradas, enquanto o torno gira rapidamente, e joga tudo para fora e escapam pedaços de argila ao longe. O pote foi ficando pequenininho… Primeiro o prato, depois o micro vaso, e o terceiro, o pote com paredes. Foram três vezes, três tentativas, três experiências deliciosas. Depois a limpeza do torno, com água e buchas, e buchas e papel jornal pra enxugar. E a argila que volta para um balde para ser reutilizada, por outras mãos, por outras histórias. Presente especial de aniversário da minha amiga Marcinha, ali comigo também, em seu território mais sagrado carioca.
Naqueles dias … me dou conta então, com essa experiência inaugural com a argila e o torno de um encaixe possível: uma triangulação da Gaiagrafia (Alejandra Arènes), os pontos riscados afroatlânticos diaspóricos, e os gestos espiralados do corpo na prática de Movimento. Todos espirais, centrípetos e cenrtrífugos. E o dedo, e o corpo que traça o seu caminho conversando com essas forças potentes da Terra. Um corpo-terra, com a terra abalando e sendo abalada nesses colapsos em curso, e a possibilidade que se abriu ali, de um livramento, uma pulsão alegre.


